Diz que na sua infância você nunca pensou em pegar aquela Bárbie magrela da sua irmã chata, arrancar a cabeça da boneca fora e colocar no lugar a cabeça da sua Tartaruga Ninja, ganhada no Natal , só pra ver no que ia dar? Ou, ter uma réplica do E.T quase do seu tamanho com aquele dedo lanterna assustador? Ou melhor ainda, pintar de caneta azul , como se fossem veias de verdade, os braços daquela boneca de herança que sua mãe e que ela até hoje tem pavor de te ver perto dela? Quem mandou crescer né?
Se você morreu de vontade de fazer isto tudo e não fez, não se preocupe. A nova onda mundial é a febre dos
Toy Art. Tudo aquilo que você não fez quando era criança agora pode ter ao alcance do seu olhos ou do seu bolso. Esta nova mania não passa de um brinquedinho para adultos descolados que adoram se divertir com algo diferente. Eles criam comunidades entre eles e trocam informações sobre as últimas novidades na área. Mas este brinquedinho não sai barato não! Mas como a turma é toda de adultos acima dos 25 e com uma recheada conta bancária. E daí? Tô pagaaaaaaaaando! Diriam todos. E pagam mesmo! Tem gente que gasta uma fortuna para ter em casa um monte de criaturas estranhas e bizarras bem longe das mãozinhas ávidas dos filhos, sobrinhso e até dos netos.
Agora é o que o bicho vai pegar! Ou já pegou e você nem sabe? Os Toy Art invadem as grandes cidades do mundo como Hong Kong, Nova Iorque, Paris, Tókio, Londres, São Paulo e Frankfurt e provocaram um frisson por onde passa. E em breve entrarão em sua casa e vão colocar banca e mudar o seu modo de ver o mundo.
Mas que bicho é este que não sai das cabeças , mentes, casas e bocas dessa geração moderna de grafiteiros, designer de moda e objetos, publicitários, ilustradores, pueblos da música e da geração pós clubber. E todos não perdem uma coleção sequer. Coleção? E tem isto também? Como figurinhas da Copa do Mundo ou Amar é...?
Tem de sobra. È aí que está o grande charme desta epidemia? Parecem brinquedo, mas criança não pode nem chegar perto. São feitos de plástico, vinil ou resina, mas têm preço de objetos de arte. Vendidos em galerias, sites, lojas de decoração e agora também em espaços exclusivos, os Toy Art, verdadeiros bonequinhos de adultos (nada a ver com as figuras infláveis que se compram escondido), não servem para brincar, embora muitos sejam até articulados, mas para admirar e colecionar. Em geral são feitos por artistas plásticos, assinados e numerados, com poucos exemplares disponíveis. Fruto da mistura entre a cultura dos quadrinhos, dos mangás japoneses e do grafite, eles se tornaram diversão de moços e moças da turma dos modernos há quatro ou cinco anos e nos últimos meses conquistaram o coração dos colecionadores em geral, dispostos a gastar, por exemplo, quase 500 reais num gato preto e branco inflável, revestido de resina, de dois palmos de altura.
De lojas especializadas na venda desses bichos de gente doida a galerias de arte conceituadas os Toy Art estão espalhado por todos os cantos. A indústria de olho nesse filão não deixa por menos. Lembra daqueles bichinhos de pelúcia da Parmalat? Sucesso de vendas e teve até briga quando eles acabaram se espalharam por tudo que segmento. A TIM fez maior sucesso com a campanha para falar dos telefone fixo da empresa ao usar como garoto propaganda os seus bichinhos. Tem Shopping que oferece com brinde. A grife Channel não dispensa um Toy Art em suas lojas espalhadas pelo mundo. E recentemente, a moda da turma dos Ipods é ter os enroladinhos da Pepsi. Um bonequinho com carinha de ouriço do mar para enrolar os fios dos tocadores de MP3. E aí? Vai ficar olhando ou vai começar a sua coleção agora?
Quer saber mais sobre o que é Toy Art?Onde tudo começou é uma discussão sem fim. Para uns o Toy Art é um segmento de vanguarda que se alastra mundo afora e até então pouco divulgado no Brasil. Em Tokyo, a famosa Keiko Miyata cria monstros de vários tamanhos e cores em intervenções conceituais. Podem ser bonecos, criaturas exóticas como insetos carnívoros, fantasmas ou zumbis, todos fazem parte do universo de fantasias e críticas ácidas ao mundo moderno. Através dos seus criadores, eles vão tecendo uma rede de expansão do surreal ao traçar um paralelo com o olhar outsider, quase visionário.
A simbologia dos bonecos vai além da imaginação. Eles deixaram de ser apenas binquedos de criança para se tornarem mascotes de adolescentes e adultos de todas as idades.
Em suas conexões com a urbe, os bonecos tanto se deixam dominar, observando atônitos o caos, quanto podem tornar-se operários de um mundo mais divertido e por que não dizer... mais fofo?! "Brinquedos macios porém obstinados, cada um com uma missão. Assim são os toys", diz May.
Para outros, foi em 1997 onde tudo começou. Michael Lau, um pintor e designer de Hong Kong de 26 anos, foi chamado por amigos da banda Anodize para criar a capa de seu novo CD. Lau decidiu customizar alguns bonecos dos Comandos em Ação (ou G.I. Joe) para deixá-los parecidos com os integrantes da banda e depois fotografá-los. Pouca gente conhece hoje a banda Anodize. Mas Michael Lau é uma estrela - pelo menos no mundo que ajudou a criar: o mundo da toy art . Logo depois de seus primeiros G.I. Joes, Lau criou um personagem de quadrinhos chamado Maxx, um skatista cool cheio de piercings e tattoos. Em pouco tempo, Maxx já era um boneco de 30 cm de altura e parte de uma grande coleção, chamada Gardeners. Viraram febre, ganharam seguidores, primeiro entre jovens descolados de Hong Kong e do Japão e depois entre o pessoal de moda, música e arte na Europa e nos Estados Unidos. Uma indústria começava a entrar em movimento, envolvendo artistas, ilustradores e grafiteiros de um lado, interessados e colecionadores de outro.
Os primeiros toys, criados há oito ou nove anos, hoje são considerados itens de colecionador: vendidos inicialmente por 20 dólares, hoje chegam a valer mais de 10 mil verdinhas. As peças de toy art ou urban vinyl, como é chamado o movimento nos Estados Unidos (por causa do vinil, material em que são feitas) têm pouco em comum com bonecos como o Ken, marido da Barbie, ou os próprios G.I. Joes. Aliás, nem são feitos para crianças (a maioria dos colecionadores tenta deixar os filhos longe de seus brinquedinhos). São peças criadas por artistas, em edições limitadas (de poucas centenas a alguns milhares) e totalmente originais. "O que faz um toy ser mais caro do que outro é sua raridade e a importância do artista que o criou", explica Nina. Podem ser bichinhos pintados por grafiteiros, como o Dunny e o Bearbrick (já considerados clássicos da toy art ), coelhinhos, como o Smokin'Labbit, que traz sempre um cigarro na boca (!), bonecas góticas como as da artista americana Camille Rosa Garcia, que nasceram em quadros de arte contemporânea ou bonecos punks criados por ilustradores de capas de CD (como Pus Head, literalmente Cabeça de Pus, ilustrador cult dos CDs da banda Metallica).
Em comum, os toys têm o fato de serem superurbanos, colecionáveis, de se valorizarem com o tempo e de sempre ter um novo a caminho. O movimento conquistou marcas de prestígio como a Chanel, que fez uma vitrine de toys em sua loja parisiense, a Nike, que contratou Michael Lau como garoto-propaganda, e a Levi's, que chamou artistas de toy art para customizar jeans. Até os criadores de desenhos animados da tradicionalHanna Barbera se renderam à moda e criam seus toys, aliás, caríssimos. Entre os artistas mais famosos no meio hoje, estão nomes como o inglês James Jarvis, o americano Gary Baseman, o japonês Yoshitomo Nara e o espanhol Frank Kosik.
Fonte:
Divirta-se (Estado de Minas)